Artigo do Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge publicado na Revista Pesquisa FAPESP nº 149 de julho/2008. 

 

FAPESP lança programa para impulsionar pesquisa em bioenergia.

Pesquisadores do estado de São Paulo estão sendo convocados a participar de um grande esforço de investigação voltado para aprimorar a produtividade do etanol brasileiro e avançar tanto em ciência básica quanto em desenvolvimento tecnológico relacionados à geração de energia a partir de biomassa. O Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), lançado no último dia 3, tem a ambição de estimular e articular as atividades de pesquisa em instituições paulistas e aperfeiçoar a expertise que já existe nessa área. “O Brasil tem vantagens acentuadas na produção de etanol de primeira geração, feito a partir da fermentação da sacarose, mas há vários desafios que precisamos vencer para melhorar sua produtividade”, afirma o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz. “Também há oportunidades importantes de desenvolvimento tecnológico do etanol de segunda geração, produzido a partir de celulose, que vem sendo alvo de pesquisas em muitos países. O Bioen atua em ambas as frentes”, afirma.
O programa terá cinco vertentes. Uma delas é o de pesquisa sobre biomassa, com foco no melhoramento da cana-de-açúcar. A segunda é o processo de fabricação de biocombustíveis. A terceira está vinculada a aplicações do etanol para motores automotivos. A quarta é ligada a estudos sobre biorrefinarias e alcoolquímica. E a quinta irá debruçar-se sobre os impactos sociais e ambientais do uso de biocombustíveis. “O desafio é estabelecer um novo modelo de pesquisa e de desenvolvimento que promova um impacto efetivo no melhoramento de cultivares, no aumento da eficiência de processos para a produção de etanol e na avaliação do impacto que o uso de biocombustíveis pode gerar em vários setores da sociedade”, explica Glaucia Mendes Souza, pesquisadora do Instituto de Química da USP e coordenadora do Bioen. 
A chamada de projetos prevê investimentos de cerca de R$ 38 milhões, divididos entre a FAPESP (R$ 19 milhões) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – R$ 10,2 milhões em bolsas e R$ 8,8 milhões do Programa de Apoio aos Núcleos de Excelência, o Pronex. Também foram celebrados convênios no âmbito do Bioen que articulam o esforço de pesquisa com empresas e outras entidades. Um deles é a primeira chamada de propostas para Convênio FAPESP/Dedini para Apoio à Pesquisa sobre Processos Industriais para a Fabricação de Etanol de Cana-de-açúcar, que investirá inicialmente R$ 20 milhões em projetos cooperativos envolvendo especialistas da empresa e de universidades e instituições de pesquisa paulistas. O Convênio FAPESP/Dedini prevê investimentos da ordem de R$ 100 milhões em 5 anos, divididos em partes iguais pelos dois parceiros. 
A Dedini não é a única empresa parceira da FAPESP no campo da pesquisa de biocombustíveis. Em 2006, a Fundação, em parceria com o BNDES, firmou um convênio com a Oxiteno, do Grupo Ultra, para o desenvolvimento de sete projetos cooperativos em que se investiga desde o processo de hidrólise enzimática do bagaço da cana-de-açúcar para obtenção de açúcares até a bioprodução de etanol de celulose. No início deste ano a FAPESP e a Braskem também estabeleceram um convênio para o desenvolvimento de biopolímeros. Além dos convênios com as três empresas, também faz parte do Programa Bioen uma chamada de propostas no valor de R$ 5 milhões para o convênio entre a FAPESP e a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) de pesquisa em biocombustíveis. Por fim, o programa também é beneficiado pela destinação pela FAPESP de R$ 10 milhões para auxílios regulares e para o programa Apoio ao Jovem Pesquisador. O conjunto de chamadas anunciado no início de junho perfaz investimentos de R$ 73 milhões.
O agronegócio de cana-de-açúcar movimenta R$ 40 bilhões por ano no país. A safra 2007/2008 deve colher 547 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, 15,2% a mais do que a anterior. Metade dela é destinada à fabricação de etanol, o que faz do Brasil o segundo maior produtor do combustível no mundo. O primeiro lugar cabe aos Estados Unidos, que extraem etanol de milho a poder de pesados subsídios. Dois terços da produção nacional estão no estado de São Paulo. Avalia-se que o Brasil precisará dobrar sua produção num horizonte de 5 a 7 anos se quiser suprir as demandas locais e internacionais do combustível. Isso exigirá a construção de novas usinas, o crescimento das áreas plantadas, melhorias no manejo e, principalmente, ganhos de produtividade.
Uma das metas principais do Bioen é criar conhecimento que contribua para acelerar o desenvolvimento de novas variedades de cana-de-açúcar capazes de propiciar esse avanço. Em São Paulo o aumento da produtividade poderá ser atingido, por exemplo, pelo advento de cultivares mais ricas em sacarose, uma vez que a expansão da cultura esbarra na pouca disponibilidade de terras livres. Já no Planalto Central a expansão é mais factível – há áreas de grande potencial mapeadas no norte do Tocantins, sul do Maranhão, Mato Grosso, Goiás e Triangulo Mineiro. O que falta é desenvolver um conjunto maior de variedades adaptadas à oferta restrita de água. “A disponibilidade de cultivares resistentes à seca será necessária para a expansão da cultura de cana nesta região, pois isso viabilizará a utilização de pastagens e poderá diminuir a pressão da expansão sobre áreas de cerrado e florestas”, diz Glaucia Souza. “Produtores do Nordeste também se beneficiarão de cultivares resistentes à seca que poderiam aumentar significativamente a produtividade da região”, afirma. 
Variedades de cana adaptadas aos diversos climas e solos brasileiros, altamente produtivos e com alto teor de açúcar ou fibra, vêm sendo desenvolvidas há anos por técnicas tradicionais de melhoramento genético. O Bioen quer ajudar a acelerar o desenvolvimento dessas variedades por meio da manipulação genética do metabolismo energético das plantas cultivadas, gerando, assim, vantagens competitivas para a produção brasileira.
O ponto de partida do Bioen foi a interação de um grupo de pesquisadores que estuda fragmentos de genes funcionais da cana, a chamadas etiquetas de seqüência expressas (ESTs), no âmbito do Programa FAPESP Sucest (Sugar Cane EST). Mais conhecido como Genoma Cana, este projeto foi realizado entre 1999 e 2003 por cerca de 240 pesquisadores liderados pelo biólogo Paulo Arruda, com financiamento da FAPESP e da Cooperativa dos Produtores de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Coopersucar). “Chegamos a 238 mil ESTs, partimos para a identificação dos genes envolvidos, estudamos as funções associadas e fizemos a matriz de tecidos para ajudar na geração de plantas transgênicas mais eficientes”, resume Glaucia Souza. “Já temos 348 dados de genes associados à síntese de sacarose”, afirma.  
Agora um dos desafios dos pesquisadores é identificar as regiões do genoma da cana-de-açúcar responsáveis por regular a expressão dos genes mapeados pelo Sucest. O conhecimento da localização física dos genes e da dosagem de suas variações (alelos), além do ambiente em que eles estão inseridos, ajudará a ganhar eficiência no uso de marcadores moleculares no melhoramento da cultura e na transformação de plantas. A meta é que esse conhecimento ajude a acelerar o desenvolvimento de novas variedades, processo que atualmente leva pelo menos 10 anos, tornando-o mais competitivo e barato. Os programas de melhoramento, hoje, partem da seleção de futuras variedades (genótipos) efetuada no campo, através da avaliação das características de interesse presentes em cada genótipo. Este processo é feito em milhares de plantas todos os anos, para afunilar em algumas variedades com alto potencial. “A idéia é reduzir o número das plantas que são avaliadas no campo, utilizando-se de dados de marcadores moleculares para selecionar previamente variedades ligadas a genes de interesse”, diz a engenheira agrônoma Anete Pereira de Souza, coordenadora do estudo e professora do Departamento de Genética e Evolução do Instituto de Biologia e pesquisadora do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (Cbmeg), ambos da Unicamp. “A identificação de marcadores moleculares associados a características de interesse é extremamente importante para a orientação dos cruzamentos no programa de melhoramento de cana”, afirma a pesquisadora Marie-Anne Van Sluys, professora do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da USP. Tanto Anete quanto Marie-Anne coordenarão pesquisas no âmbito do Bioen. A tarefa de identificar os marcadores moleculares, diga-se, está longe de ser trivial. O genoma da cana chega a ser três vezes maior do que o humano, com o agravante de que, em vez de duas cópias de cada cromossomo, há até dez cópias e elas não são iguais. 
O Programa Bioen também buscará estudar os mecanismos de defesa da cana contra algumas das principais pragas. A interação entre a planta e o inseto é considerada um sistema dinâmico, sujeito a contínuas variações. “As plantas desenvolveram diferentes mecanismos para reduzir o ataque de insetos, incluindo respostas específicas que ativam diferentes vias metabólicas e alteram consideravelmente suas características químicas e físicas”, diz Glaucia Souza. Por outro lado, os insetos desenvolveram estratégias para superar as barreiras defensivas das plantas, permitindo a sua alimentação, desenvolvimento e reprodução nos seus hospedeiros. Um dos objetivos específicos é estudar a broca gigante da cana-de-açúcar, uma das principais pragas da cultura na Região Nordeste e recentemente identificada em áreas de cultura no Sudeste, além de entender a função de proteínas específicas de defesa da cana-de-açúcar contra o ataque da broca.
Outro foco de estudos é a forma como a cana-de-açúcar irá responder às mudanças climáticas. Esse conhecimento poderá ajudar a desenvolver variedades mais resistentes a eventuais aumentos de chuva e de calor, além do esperado avanço de pragas. Já é sabido que a alta concentração de gás carbônico produz um aumento na fotossíntese e no volume de biomassa, o que faz antever um avanço da produtividade. “Em contrapartida, pouco se sabe sobre os mecanismos de controle hormonais, suas­ relações com o metabolismo de carbono e as redes de transcrição gênica a ele associados”, diz Marcos Buckeridge, professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da USP, que também coordena o Bioen. “O conhecimento de tais processos tem o potencial de expor quais os pontos do metabolismo da cana poderiam ser alterados para produzir variedades com potencial de adaptação às mudanças climáticas”, afirma Buckeridge.  A busca de fontes para a produção de biocombustíveis que não comprometam a natureza, como, por exemplo, a obtenção de etanol a partir de polissacarídeos de sementes de árvores nativas cultivadas em meio a plantações de cana, também será alvo de investigação. “Sistemas agroflorestais podem representar um novo modelo capaz de aumentar a produção de energia renovável, de uma forma harmônica e com benefícios sociais, além de impacto ambiental mínimo”, afirma Buckeridge.
Apenas a sacarose, responsável por um terço da biomassa da cana, é aproveitada para a produção de açúcar e álcool combustível. É certo que o Brasil utiliza o bagaço da cana na geração de energia nas usinas ou na produção de alimento para animais, o que foi responsável por um notável ganho de eficiência. O grande desafio é converter em etanol também a celulose, que está no bagaço e na palha da cana – processos de hidrólise enzimática ou físico-química permitiriam que as unidades de carbono da celulose e da hemicelulose fossem também fermentadas. O domínio das tecnologias de utilização da celulose está no centro da corrida mundial pela produção de energia a partir de fontes renováveis. Hoje esse processo tem custos muito elevados e está longe de ser viável economicamente. Se os pesquisadores encontrarem formas de reduzir custos, o uso dos dois terços de celulose da cana poderia, a longo prazo, ampliar dramaticamente a produção do etanol brasileiro. 
No âmbito do Bioen, será estudada a fisiologia das paredes celulares da cana-de-açúcar. Elas são constituídas por celulose, hemiceluloses e pectinas entrelaçadas de tal forma que é extremamente difícil extrair com eficiência a energia existente em suas ligações químicas. Vai-se investir no conhecimento sobre como a parede é constituída para, talvez, alterar sua estrutura e criar variedades nas quais a sua degradação seja mais simples. “Já temos  a composição e estrutura dos polissacarídeos da parede celular das folhas, colmo e flores da cana. Portanto, sabemos quais ligações devem ser quebradas para produzir açúcar”, diz Buckeridge. “Temos também uma lista de 469 genes relacionados à parede celular e estamos aprofundando os estudos para compreender como algumas das enzimas trabalham. Mas essa é uma tarefa longa, pois teremos não apenas que entender como cada enzima trabalha, mas também como elas trabalham em conjunto. Nosso objetivo de longo prazo é fazer com que a planta, em um dado momento durante o desenvolvimento, comece a degradar a sua própria parede, de forma que depois de ser colhida seja mais fácil terminar o processo de hidrólise usando enzimas de microorganismos”, afirmou o pesquisador.  
As pesquisas sobre a obtenção do etanol de celulose envolvem processos físicos, químicos ou biológicos – ninguém sabe ainda qual deles será mais eficiente. “Há até 2 anos produzir etanol em grande quantidade era assunto brasileiro. Agora, com o interesse dos países desenvolvidos nessas tecnologias, teremos competidores que nos obrigam a incorporar muito mais ciência avançada”, diz Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, que ressalta a importância de investir simultaneamente no etanol tradicional e no de celulose. “A idéia de que o etanol de segunda geração seria superior ainda é controversa. Sem dúvida, ele será vantajoso para países que não conseguem produzir o etanol de primeira geração. As pesquisas indicam que o etanol de primeira geração permanecerá superior ao de segunda geração por muitos anos. Mesmo assim o etanol de segunda geração será muito atraente frente ao custo atual do petróleo”, afirma. 
A Dedini, que celebrou parceria com a FAPESP, já desenvolveu e patenteou um processo de obtenção de etanol de celulose e busca agora aperfeiçoá-lo. “É um grande privilégio poder contar com o conhecimento dos centros de pesquisa para que, juntos, resolvamos problemas tecnológicos vinculados à produção do etanol”, diz José Luiz Olivério, vice-presidente da Dedini. A chamada de propostas estabelece que, nos próximos 3 meses, pesquisadores poderão apresentar projetos em temas ligados ao aperfeiçoamento de processos tradicionais, como a produção do etanol ou o uso de resíduos da cana para geração de eletricidade, e o desenvolvimento de processos inovadores, como a obtenção de etanol de celulose por meio de hidrólise ácida ou enzimática com custos competitivos. As propostas serão selecionadas por um comitê e os projetos contemplados serão acompanhados por especialistas em pesquisa e desenvolvimento da Dedini. 
A discussão sobre o eventual impacto do cultivo do etanol na produção de alimentos, que ganhou corpo nos últimos meses, poderá ser alvo de pesquisas na quinta vertente do programa, aquela que analisará os impactos sociais e ambientais do avanço da produção de bioenergia. “Já foi bem demonstrado que isso é um equívoco, que os dois maiores causadores do crescimento do custo dos alimentos são a alta do preço do petróleo, que afeta o transporte, e a elevação do consumo mundial causada pelo desenvolvimento econômico acelerado da China e da Índia”, diz Brito Cruz. “A preocupação do Bioen não se prende a esse debate conjuntural, mas sim ao fato de que até hoje o desenvolvimento da agricultura no mundo sempre foi pautado pela produção de alimentos e agora passará a ser pautado também pela produção de energia para automóveis. Isso provavelmente mudará a lógica que governa a evolução da agricultura no mundo e sobre isso ainda se sabe pouco”, afirma. 
Por fim, o Bioen também pretende atrair e formar pessoal qualificado para a pesquisa em bioenergia. A idéia é criar condições para consolidar a liderança do estado nesse campo por meio de ações que permitam o desenvolvimento da pesquisa acadêmica dentro de um padrão de competitividade internacional, ampliar a contribuição dos institutos e centros que já desenvolvem pesquisas na área e estabelecer uma rede de pesquisa em parceria e em colaboração com empresas.

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Matéria do Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge publicada na Revista Opiniões de jul-set/2008

 

A busca pela eficiência de hidrólise passa pelo uso de enzimas que são catalisadores específicos, que quebram apenas as ligações químicas desejadas. É como desmontar um equipamento complexo, usando todas as ferramentas corretas. A desmontagem é rápida e eficiente, não exigindo grandes gastos por parte do desmontador. Se não tivermos as ferramentas apropriadas, a desmontagem torna-se ineficiente.
O problema não é tão simples, pois além de possuir ligações químicas diferentes, os polímeros da parede celular interconectam-se de forma ainda desconhecida e isto dificulta muito o acesso às ligações glicosídicas.
Portanto, é necessário, primeiro quebrar as interações de pontes de hidrogênio entre os polímeros e introduzir água entre eles. A hidratação dos açúcares tornam-os mais acessíveis às enzimas, uma vez que para fazer a hidrólise, como o nome diz, é necessário haver água.
Há vários tipos de parede celular em plantas e estes representam combinações de diferentes polímeros. Ao contrário do que se acredita, em geral, as paredes celulares não são formadas apenas de celulose e lignina, mas de uma mistura de celulose (~30%), hemicelulose (~30%), pectinas (~30%), alguma lignina (~3%) e proteínas (~7%).
Na cana, que é uma gramínea, já sabemos que as paredes são do tipo II, compostas por pouca pectina e com um complexo celulose-hemiceluloses, cujas últimas são uma mistura de arabinoxilanos>beta-glucanos>mananos.
A celulose é sintetizada na membrana das células e é complexada com as hemiceluloses, que são feitas no Complexo de Golgi, no citoplasma. As hemiceluloses são secretadas para o espaço intercelular e os betaglucanos e os mananos servem de andaimes para montar um complexo entre arabinoxilanos e celulose, travando o sistema em uma malha complexa, com vários tipos de ligações entre as moléculas.
Já deve ter ficado claro para o leitor que desmontar este complexo não é tarefa simples. Será necessário conhecer cada tipo de ligação e a forma de agregação entre os polímeros, o que, em biologia celular, chamamos de “arquitetura” da parede celular. Para desmontar esta malha de polímeros, será necessário usar um conjunto de enzimas (de microrganismos e/ou da própria cana), que desmonte tudo e produza monossacarídeos que sejam fermentáveis.
Em 2001, usando o banco de dados do genoma da cana (Sucest-Fapesp), identificamos 469 genes ligados ao metabolismo da parede celular. Descobrimos que a cana está constantemente sintetizando polissacarídeos de parede, mas que o sistema de hidrólise das principais hemiceluloses está praticamente desligado, conforme ilustra a figura.
Mais recentemente, determinamos a estrutura química dos polímeros de parede celular da cana e temos agora um mapa das ligações químicas a serem quebradas. Temos, assim, as chaves e as fechaduras dentro da própria cana.
As perguntas que temos que responder agora são: como controlar o balanço entre os sistemas de biossíntese e degradação de parede? Quais os genes que controlam esta divisão de trabalho? Podemos alterar este padrão na planta, de forma a fazer com que ela torne suas paredes mais acessíveis às enzimas de fungos, para que obtenhamos açúcares livres a partir das hemiceluloses e celulose, de forma eficiente? Várias plantas, ou partes delas, como os frutos e sementes, fazem isto de forma bastante eficiente. Por exemplo, descobrimos que ao terminar o desenvolvimento e tornar-se pronto para iniciar o amadurecimento, um fruto de mamão modifica suas hemiceluloses e degrada boa parte de sua celulose, amolecendo o tecido e permitindo a extração de açúcares e tornando o fruto mais doce.
O que temos que fazer é aprender com este e outros sistemas, como as plantas executam processos como este, em escala celular. Temos que saber quais genes estão por trás do controle de outros genes, que degradam ou constroem a parede celular.
Esta é uma das justificativas mais importantes para que sequenciemos o genoma completo da cana. Sem ele, não teremos acesso aos genes controladores dos processos fisiológicos e bioquímicos, que nos levarão à eficiência máxima na produção do etanol lignocelulósico.
Ao alcançarmos esta meta, não só abriremos novos mercados para o bioetanol brasileiro e todas as tecnologias a ele associadas, mas também auxiliaremos na diminuição do efeito das emissões de CO2 e nas mudanças climáticas associadas.

* Na rota para o etanol lignocelulósico, seria mais produtivo obter a cana-energia, uma cana que tem a biossíntese de parede celular ainda mais intensa e que armazena polissacarídeos na parede, ao invés de sacarose, nos vacúolos das células do colmo. Com um sistema de ativação dos genes de degradação durante a maturação da cana, poder-se-ia produzir alterações, que preparem o bagaço para ser hidrolisado mais eficientemente pelas hidrolases fúngicas. O sequenciamento completo do genoma, aliado a estudos de proteômica e variabilidade genética relacionada à parede, serão aliados importantes. O círculo branco e verde representa a parede celular. B=biossíntese e D=degradação.

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Artigo do Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge publicado na coluna Neotrópicas do site de Pesquisa FAPESP em 13/06/2008

 

Para saborear uma redonda de mussarela, o cliente consome a bioenergia das moléculas de carbono armazenadas em vários processos.

Enquanto aguardamos a preparação de uma suculenta pizza, se dermos uma olhada para o forno com a lenha em brasa, veremos uma das cenas mais antigas do uso de bioenergia. Uma pizzaria de porte médio em São Paulo começa a queimar lenha por volta das 17 horas e pode vender até 300 pizzas num bom dia. A madeira usada tem que ser o eucalipto (madeiras nativas são proibidas) e em média um quilo de madeira é torrado para cada pizza. Resultado: no fim da noite os consumidores de pizza transformaram quase 300 quilos de madeira em CO2.
Mas a contribuição da bioenergia para o jantar não é só essa. Para ir à pizzaria, os clientes usam seus carros e consomem petróleo e/ou etanol. Depois de ingerirem a massa com queijo e molho de tomate, os apreciadores de pizza irão extrair uma boa parcela da energia armazenada nos carboidratos e lipídeos. Depois de comer, voltam para casa de carro e gastam mais biocombustível para se transportar.
O que tudo isso tem em comum? Todos esses processos visam à liberação da energia presa na ligação entre moléculas de carbono, que vieram, sem exceção, da fotossíntese.
Queimar madeira talvez seja um dos processos mais antigos desenvolvidos pelo homem para retirar energia de macromoléculas. Ao queimar madeira, o que se está queimando é açúcar. Os ancestrais do homem provavelmente dominaram o fogo há muito tempo, talvez 1 ou 2 milhões de anos atrás. No entanto, foi a revolução do neolítico, há cerca de 10 mil anos, que iniciou um longo período de uso de biomassa para a obtenção de energia. Queimar madeira foi suficiente para produzir calor e luz até a revolução industrial na Inglaterra. Com a revolução, a demanda por madeira aumentou tanto que, no fim do século XVII, já havia escassez desse insumo na Europa, tal era o seu consumo para os processos industriais. A conseqüência disso foi a devastação das florestas européias e o início da devastação das florestas pan-americanas em razão da colonização das Américas.
Devido à escassez de madeira, foi então sugerido que se utilizasse a fumaça oriunda da queima  do carvão mineral para formar um composto que foi chamado de coke (em português carvão coque). Em 1709, Abraham Darby desenvolveu um auto-forno mais eficiente para produzir ferro de alta qualidade usando coque ao invés de carvão. Esse é hoje considerado como um passo decisivo para o avanço da revolução industrial.
Uma das fontes mais incríveis de energia que a humanidade já encontrou foi o petróleo. A descoberta não é nova, pois se acredita que ele já era utilizado pelos persas e pelos chineses. Bem mais tarde, os EUA começaram a usá-lo intensamente a partir de 1859 e uma indústria complexa surgiu a partir do petróleo.
A teoria mais aceita sobre a origem do petróleo é a “biogênica”. Segundo essa teoria, restos de organismos mortos (fito e zooplâncton) presos entre o lodo no fundo do mar dariam origem ao petróleo nos oceanos enquanto em terra esse papel seria desempenhado principalmente pelos restos de plantas. Do petróleo também se produz o coque que é usado na indústria para a produção de ferro gusa, forma básica de liga ferro-carbono que dá origem ao aço, por exemplo. No caso do Brasil, um dos maiores produtores de gusa do mundo, o carbono para fazê-lo vem do carvão, ou seja, originalmente de madeira. Assim, o aço existente na lataria do automóvel que leva nossos clientes à pizzaria também tem uma relação com o carbono fixado na madeira através da fotossíntese.
No caso da pizza, para voltar ao prato principal do artigo, o amido da farinha de trigo usada em sua massa é originário do processo fotossintético, assim como os polissacarídeos que dão a consistência ao molho de tomate. Já o leite usado para produzir o queijo passa por um processo de baixíssima eficiência de armazenamento de carbono quando comparado a o que ocorre com os demais componentes da pizza. Basta pensar que para produzir leite uma vaca necessita de um enorme pasto com gramíneas crescendo, fazendo fotossíntese e produzindo amido.
Atualmente há uma intensa discussão sobre o uso da bioenergia para evitar a emissão de carbono e o efeito que a produção de biocombustívies poderia ter sobre a produção de alimentos. O problema é que para produzir comida é necessário gastar energia. Nesse contexto, será que se poderia esperar um desequilíbrio mundial na produção de alimentos devido à produção de biocombustívies? Dificilmente um estado de desequilibro intenso se sustentaria, pois não dá para ficar sem comida por muito tempo e se não tivermos a energia para obtê-la tampouco teremos comida. Os dois processos são tão atrelados entre si que não é possível separá-los.
Por que então tanta discussão atualmente sobre os biocombustívies e a comida? Será que produzir biocombustíveis de forma limpa e ambientalmente balanceada não seria o melhor caminho a seguir? Se fizermos isso, os biocombustívies com certeza não serão uma ameaça à humanidade, como acham alguns. No Brasil já temos leis e tecnologias para isso.
O que ocorre mesmo é que os europeus se preocupam com os pobres quando lhes convêm. Se estão tão preocupados assim com a falta de comida nos países pobres, por que os europeus não ajudam essa camada menos favorecida de habitantes da Terra a produzir mais alimentos? Mais do que isso: poderiam também comprar os biocombustíveis que são produzidos por esses países de forma ambientalmente sustentável e, assim, ajudá-los a melhorar em vários aspectos. E também poderiam baixar ou eliminar os subsídios à sua própria produção agrícola para que ela seja mais suficiente.
Sabemos que a participação dos biocombustíveis na matriz energética mundial é e será limitada. Não haverá área suficiente para produzir tanta biomassa e não podemos invadir biomas preservados sob risco de acelerarmos os efeitos das mudanças climáticas.
Ainda assim, é possível, sim, produzir bioetanol, lucrar e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente e respeitar as pessoas. Não é necessário, ou pelo menos não deveria ser, que ensinem aos brasileiros como fazer isso. O Brasil do século XXI tem que ser capaz de adotar políticas públicas equilibradas, que sejam boas não só para nós, mas também para o resto do mundo.
Se soubessem que é necessário gastar tanta bionergia para fazer uma pizza, será que os clientes deixariam de comê-la? Duvido!

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Artigo do Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge publicado na Revista Pesquisa FAPESP nº 148 de junho/2008. 

 

Avidez das plantas por gás carbônico abre perspectivas de produzir mais alimento em menos espaço e de amenizar o aquecimento global

A atual safra de estudos sobre a cana-de-açúcar confere uma tarefa a mais para a planta usada para produzir o açúcar indispensável à maioria dos brasileiros e o álcool que atrai o olhar do mundo e move quase metade dos automóveis no país. A cana emerge agora como uma possibilidade de deter o aquecimento global: o contínuo acúmulo de gás carbônico (CO2) na atmosfera, que tende a elevar a temperatura do planeta, é inquietante para a humanidade, mas ótimo para as plantas, entre elas a cana. O mesmo CO2 que vemos como poluição é uma forma de adubo para as plantas. Portanto, a cana, outras culturas agrícolas e muitas espécies de árvores poderiam se beneficiar e crescer mais rapidamente em um ar mais poluído.
A bióloga Amanda Pereira de Souza trabalhou com cana durante 5 anos no Instituto de Botânica, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na Universidade de São Paulo (USP). Fez uma série de experimentos e, por fim, demonstrou que a cana mantida em um ambiente com o dobro da concentração atual de CO2 realiza 30% a mais de fotossíntese e produz 30% mais de açúcar do que a que cresce sob a concentração normal de CO2. Das câmaras que mantinham esse ar rico em gás carbônico saíram plantas também mais altas e mais encorpadas, com 40% a mais de biomassa. A soja e a batata apresentaram resultados próximos, em experimentos semelhantes. A conclusão que ganha força é que a maioria das outras plantas, incluindo as árvores, deve se beneficiar do provável excesso de gás carbônico, um dos ingredientes essenciais para ocorrer a fotossíntese, embora algumas mais do que outras (ver tabela na próxima página).
Os resultados poderiam representar uma vantagem para o Brasil, a Índia e a China, os maiores produtores de cana-de-açúcar, em um cenário de maior concentração de gás carbônico. Essa conclusão merece, porém, ser examinada com cautela para evitar que a expansão de canaviais como forma de limpar o ar e ao mesmo tempo de produzir riquezas. O papel dos canaviais para retirar gás carbônico do ar seria muito modesto, se comparado ao das florestas tropicais, alerta Marcos Buckeridge, botânico da USP e coordenador desse experimento. Suas estimativas indicam que os canaviais de todo o país absorveriam apenas 1 milésimo dos 3 bilhões de toneladas de CO2 liberados todo ano nas queimadas da Amazônia.
A soja, que ocupa uma área três vezes maior que a da cana, faz ainda mais fotossíntese e aproveita a água de modo ainda mais eficiente, quando submetida à mesma concentração de CO2, de acordo com os experimentos coordenados por Carlos Martinez na USP de Ribeirão Preto. Segundo ele, as plantas com estruturas de armazenamento de açúcares – como a cana, a batata, o tomateiro, a soja e o milho – podem crescer até 40% com mais CO2. “No entanto”, ressalta, “só o excesso de CO2 não elevará a produtividade das plantas. As outras condições, como água, nutrientes, luz e temperatura, também têm de ser favoráveis”. Dois especialistas em fisiologia de plantas, Jon Lloyd, da Inglaterra, e Graham Farquhar, da Austrália, alertam em um estudo recente para a possibilidade de a taxa de fotossíntese cair quando a temperatura ultrapassar 30° Celsius.
Até agora os experimentos foram feitos em laboratório: as plantas crescem em vasos cercados por câmaras transparentes cilíndricas e de topo aberto, com bastante gás carbônico, água, luz e nutrientes. Falta testar em condições reais – em campo, quando as plantas se submetem a variações diárias de água e temperatura. Desde já parece certo, porém, que o excesso de CO2 atmosférico deve alterar a biodiversidade e a composição das florestas. Espécies de árvores pioneiras como o feijão-do-mato e a embaúba, as primeiras a ocuparem os novos espaços, tendem a crescer ainda mais rápido que as espécies definitivas e de vida mais longa como o jacarandá-da-baía e o jatobá. Por sinal, foi com o jatobá, em um estudo pioneiro, que Buckeridge demonstrou em 2001 que uma planta pode crescer mais e mais rapidamente sob concentrações mais elevadas de gás carbônico.
Esses e outros estudos feitos no Brasil e em outros países valorizam a cana-de-açúcar como fonte de etanol, um combustível verde e renovável, diferentemente dos de origem fóssil como o petróleo. O milho, a matéria-prima para o etanol nos Estados Unidos, até agora não se mostrou tão ávido por CO2 quanto a cana. Além disso, saber que a cana cresce mais com mais gás carbônico tornaria possível obter o mesmo rendimento em metade da área plantada, aproveitando a outra metade para plantar feijão, arroz ou milho, por exemplo. “Podemos produzir mais e de modo sustentável”, acredita Buckeridge. Ele defende a idéia de um canavial com floresta: a área que deixaria de ser ocupada por cana poderia ser aproveitada com matas de uso sustentável, que ajudariam a gerar renda, a reter CO2 e a deter os impactos ambientais da cana. “Por que não pensar também em como usar o gás carbônico liberado nas dornas de fermentação da cana nas usinas para irrigar o canavial e aumentar a produtividade e o teor de açúcar?”
Os biólogos da USP, em conjunto com colegas da Unicamp, do Instituto de Botânica e de uma instituição privada, o Centro de Tecnologia Canavieira, verificaram que a cana capta não só mais CO2, mas também mais luz, outro ingrediente essencial à fotossíntese. Em seguida, identificaram quatro genes associados à maior absorção da luz e dois que expandem a parede celular, que guarda quase metade do carbono obtido com a incorporação do CO2.
Encontrar genes como esses não é nada trivial: a cana-de-açúcar, geneticamente, é bastante complexa. As variedades de cana hoje mais utilizadas para produzir açúcar, álcool, aguardente, caldo de cana e rapadura têm um número variável de cromossomos – de 100 a 130. Cada célula mantém pelo menos parte da herança genética das espécies originais, a Sacharum spontaneum, cujo número de cromossomos varia de 36 a 128, e a Sacharum officinarum, com 70 a 140 cromossomos. E cada cromossomo tem de seis a dez cópias – nem sempre iguais.
Não há mais por que se perder nesse labirinto. De 1999 a 2003, quase 250 pesquisadores de instituições paulistas, pernambucanas e fluminenses trabalharam no Genoma Cana ou Sucest e identificaram 90% dos estimados 80 mil genes da cana, representados por 43 mil seqüências ativas de genes. “Conseguimos acompanhar passo a passo o desenvolvimento internacional em genética molecular de plantas”, observa Marie-Anne Van Sluys, pesquisadora da USP que participou do Sucest.
Genes úteis - Tanta informação sobre a genética da cana tem ajudado a validar e a orientar o melhoramento genético clássico, que começou no início do século em instituições como o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e hoje corre também em universidades de todo o país. Em um artigo recente a equipe do Sucest apresenta os genes que podem ajudar a apurar características agronômicas desejáveis, como teor de açúcar ou resistência a pragas ou a doenças, ou como potenciais identificadores moleculares para as características mais procuradas da cana; outro trabalho descreve os genes e os mecanismos bioquímicos por meio dos quais uma das variedades atuais de cana acumula sacarose. “Pela primeira vez”, diz Marie-Anne, “há um esforço conjunto de geneticistas, bioquímicos e agrônomos para identificar genes que possam acelerar a identificação de novas variedades e facilitar a seleção das plantas mais promissoras”.
Desse caminho de mão dupla entre geneticistas e melhoristas saem também as canas transgênicas ou modificadas geneticamente, com mais açúcar ou mais resistentes à seca, que poderiam aumentar a produtividade e conter a expansão sobre o Cerrado, uma das vegetações naturais que mais tem sido substituída pela agropecuária. Algumas dessas variedades experimentais já passaram pelo primeiro vestibular: os testes realizados em casas de vegetação de universidades ou de empresas de biotecnologia nacionais. Em um dos experimentos só passaram duas das 40 plantas que poderiam fornecer mais sacarose que as variedades em uso. Essas novas plantas vão agora para a prova de fogo: os testes em campo, sob as variações de sol, chuva e umidade, além das pragas, a que as plantas se submetem normalmente. Mesmo os mais otimistas não apostam que esses experimentos em campo vão dar certo: até agora a maioria das plantas modificadas geneticamente decepciona quando chega às condições reais de plantio. Uma série de artigos e reportagens sobre genomas de plantas publicados na Science de 25 de abril (www.sciencemag.org/plantgenomes/) demonstra que nem sempre o otimismo é recompensado. O arroz geneticamente modificado para evitar cegueira e morte por falta de vitamina A em milhões de crianças continua uma promessa, quase 8 anos depois de ter aparecido na capa da Time.
Mesmo assim, o engenheiro agrícola e professor da Unicamp Luís Augusto Cortez não desanima fácil. Há 15 anos ele cultiva a idéia de extrair da cana muito mais do que açúcar e álcool. Insistiu e, com sua equipe, construiu uma planta piloto que transforma 200 quilos de bagaço em 80 quilos de óleo que poderia substituir o diesel em turbinas e caldeiras, entre outras aplicações, e 50 quilos de carvão que poderia servir como combustível ou aditivo de solo. Tanto a matéria-prima quanto os produtos finais são versáteis, já que o engenheiro químico Juan Pérez assegura que outros resíduos agrícolas, como o bagaço de laranja e serragem, poderiam ser usados no lugar da cana, com os mesmos resultados.
Erosão e poluição
A cana também produz controvérsias. Enquanto uma parte dos pesquisadores enfatiza os benefícios da cana-de-açúcar, outra alerta para um lado amargo: os impactos ambientais e sociais provocados por métodos de produção que pouco mudaram em quase 5 séculos, quando essa planta começou a ser cultivada no país. O interesse do mundo pelo etanol da cana motiva esse debate – sem questionar o fato de esse combustível ser hoje uma alternativa mais adequada que o petróleo – e pode acelerar a implantação de propostas e leis já à mão, que reduziriam os impactos da produção de açúcar e álcool.
“Do jeito como é produzido hoje, o etanol não é verde, mas cinza”, observa o agrônomo Luiz Antonio Martinelli, professor do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP e autor de um estudo de revisão sobre os impactos ambientais e sociais do cultivo da cana-de-açúcar no país. “Não podemos mais fazer usinas derrubando matas”, diz José Goldemberg, físico da USP que coordenou outro estudo de revisão, assim chamado por avaliar as tendências indicadas por dezenas de estudos anteriores. Goldemberg lembra que as primeiras usinas que se instalaram em pólos como Ribeirão Preto não estavam sujeitas a limitações ambientais. “Os proprietários atuais ainda reclamam, alegando que os avós deles não tinham essas restrições.”
Martinelli e Goldemberg mostram que os efeitos negativos do atual modo de produção de açúcar e álcool não se limitam à época da colheita, quando a fumaça das queimadas que antecedem o corte da cana agrava doen­ças respiratórias como a asma, princi­palmen­te em crianças e idosos. Outras repercussões são mais sutis e persistem por todo o ano: a erosão e compactação de solos, a poluição dos rios com fertilizantes e resíduos da produção de açúcar e álcool e a eliminação das flo­restas nativas que ajudam a estabilizar a temperatura e o abastecimento de água nas cidades.
Atenta às possibilidades de mudanças, a bioquímica da USP Gláucia de Souza diz que o Programa Bioenergia FAPESP (Bioen), que ela coordena e de­ve ser anunciado publicamente, deverá apoiar pesquisas sobre novas formas de reduzir os impactos do cultivo e do processamento industrial da cana. Segun­do ela, os projetos de pesquisa em biomassa tentarão aumentar a produti­vidade da cana por hectare plantado e assim produzir mais sem ocupar mais terras.
“Temos de mudar de um modelo de produção que nos trouxe até aqui para um modelo ambientalmente sustentável, que utilize menos água e menos fertilizante, com mais cérebro do que força”, afirma Cortez, que coordena um projeto de políticas públicas em parceria com a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) e a colaboração de universidades, empresas e institutos de pesquisa públicos e privados (os resumos de debates e estudos dessas e outras equipes podem ser encontrados em www.apta.sp.gov.br/cana). “Nosso objetivo é mostrar o que precisa ser estudado e feito.”
Enquanto corre o debate sobre o que fazer, empresários estrangeiros se aproximam dos canaviais: em abril, depois de norte-americanos e franceses, foi a vez de os ingleses anunciarem a compra de usinas produtoras de etanol no Brasil. Não são movimentos isolados porque a produção de açúcar e álcool vive uma crescente desnacionalização: de 2006 para 2007 a participação estrangeira passou de 5,7% para 12% e somente no ano passado o Banco Central registrou investimentos de US$ 6,5 bilhões nessa área, de acordo com um dossiê sobre o agronegócio sucroalcooleiro assinado pe­la socióloga Maria Aparecida de Moraes Silva, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Chegam também mais pressões por mudanças. Em maio, representantes da Comunidade Européia anunciaram que pretendem condicionar a compra de etanol brasileiro ao cumprimento de critérios ambientais e sociais aceitáveis. Fábio Feldmann, um dos coordenadores do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas, acredita que o mercado internacional, em especial o europeu, deve motivar os produtores a batalharem pela certificação ambiental e social, hoje voluntária.
Não seria preciso criar muito para pôr mais ordem no canavial, porque já existem propostas, leis e soluções à mão. “Temos de fazer como o Mato Grosso do Sul, que é zonear (delimitar as áreas a serem cultivadas)”, diz Goldemberg. Cortez concorda, embora note resistências: “Os próprios órgãos públicos que deveriam estar zelando pelo ambiente é que autorizam a instalação de novas usinas”. Definir onde pode e onde não pode plantar talvez ajudasse a conter a expansão dos canaviais sobre outros espaços. De acordo com um estudo do Cena e do Instituto Florestal, canaviais e pastagens ocupam 75% da área que margeia os rios das sete maiores bacias hidrográficas no estado de São Paulo. De acordo com a lei, a área que bordeja os cursos d’água deveria ser mantida com a vegetação natural.
“A produção pode se adequar às exigências ambientais por meio de medidas simples e do cumprimento de leis que já existem”, diz Martinelli. Quem quiser cumprir a lei restaurando a vegetação original conta com abordagens diversas, algumas de eficácia já demonstrada (ver Pesquisa FAPESP nº 144, de fevereiro de 2008). E, relativamente aos ganhos gerados pela terra, não seria caro. Uma equipe da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP desenvolveu uma dessas metodologias e estimou em R$ 3.500 por hectare o custo de restauração da vegetação original. Esse valor equivale a menos de 10% da receita obtida com a agricultura e a indústria nas regiões drenadas pelas bacias dos rios Piracicaba e Mogi, dois extremos de ocupação agrícola, com menos de 20% das matas originais.
Em março o governo federal anunciou a intenção de investir R$ 9 bilhões para ampliar a produção atual de etanol de 17,7 bilhões de litros para 23,3 bilhões de litros até 2010. “Se mantivermos o mesmo modelo de produção, os danos ambientais e sociais serão ainda maiores”, alerta Martinelli. Para cada litro de etanol, lembra ele, as usinas produzem de 10 a 12 litros de vinhaça, um resíduo marrom, de cheiro forte, corrosivo e rico em matéria orgânica. Portanto, quem enche o tanque com 50 litros de álcool consome o resultado de 40 minutos do trabalho de um cortador de cana e a produção de pelo menos 500 litros de um resíduo de destino incerto. “Poucas usinas têm capacidade para usar como fertilizante nos próprios canaviais toda vinhaça que produzem”, diz ele. “Quando os tanques de armazenamento se rompem e a vinhaça chega aos rios, o oxigênio cai a zero e os peixes morrem. É o mesmo efeito do esgoto.”
Na época das queimadas – entre novembro e abril – as internações nos hospitais das cidades próximas aos canaviais, motivadas por problemas respiratórios, triplicam, de acordo com Eduardo Cançado, da Faculdade de Medicina da USP. As partículas empurradas pelo vento e pela chuva podem transportar pesticidas. Um deles são os organoclorados, proibidos em 1985, mas encontrados em 1997 em peixes da bacia do Piracicaba, segundo Martinelli e Fernando Lanças, da USP em São Carlos. Os organoclorados reapareceram em 2003 em riachos próximos a canaviais na região central do estado.
Os resultados dos levantamentos de Martinelli e de Goldemberg nem sempre coincidem: o primeiro concluiu que a cana utiliza de 80 a 100 quilos de nitrogênio como fertilizante por hectare por ano, enquanto o segundo sustenta que são 50. Ambos, porém, reconhecem que seria sensato aproveitar esse momento histórico de uma indústria já madura e de produtividade crescente para promover ajustes nos métodos de produção. De 1960 a 2007 a produtividade saltou de 45 para 75 toneladas de cana por hectare, em conseqüência do uso de melhores técnicas de cultivo e do melhoramento genético das variedades plantadas. O cortador de cana também está rendendo mais: em 1950 cortava em média 3 toneladas de cana por dia, chegou a 6 toneladas em 1980 e hoje passa o facão em 10 toneladas por dia. “Temos de encontrar alternativas mais dignas, que paguem mais e não prejudiquem a saúde”, propõe Cortez.
Ele sugere um olhar abrangente: o açúcar e o álcool como resultados de uma cadeia produtiva, merecendo mais, portanto, do que estudos focados em aspectos isolados do plantio ou da produção. Maria Moraes propõe uma abordagem ainda mais ampla. “Se não entendermos a situação do país, sempre ficaremos com conhecimento muito parcelado da realidade.” Em abril do ano passado ela passou muitas horas ouvindo os moradores dos bairros periféricos de Timbiras e Codó, duas cidades do Maranhão cercadas por florestas de babaçu. Seu objetivo era descobrir por que centenas de homens deixavam as famílias e viajavam três dias e três noites para cortar e puxar cana no interior paulista.
Maria Moraes descobriu que os homens migravam para São Paulo porque haviam sido expulsos de terras que cultivavam em municípios ainda mais distantes. Representantes de empresas que criam gado queimaram as roças de arroz, feijão e milho, as matas de babaçu, os animais de criação e as casas das famílias que moravam por lá. Depois os ameaçaram de morte caso não deixassem as terras de que não eram donos. Os 85 processos judiciais que ela consultou descrevem o que aconteceu, questionam a legitimidade das escrituras de posse da terra usadas como argumento para essas atitudes e relatam o esforço das famílias para voltar às terras que cultivavam.

 

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Entrevista do Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge ao Programa SPTV no dia 18/03/2008

 

Pelo menos 4.009 aguardam vistoria, diz prefeitura.
Moradores do bairro nobre de Higienópolis estão preocupados com árvores centenárias.

A falta de poda de árvores é um problema grave na capital e pode demorar até um ano para ser realizada, segundo moradores que já solicitaram o serviço. Faltam engenheiros agrônomos nas subprefeituras. 
Atualmente, 4.009 árvores aguardam a visita de um funcionário. Mas faltam engenheiros agrônomos. Atualmente são 33 quando o necessário seriam 94. A prefeitura diz que um pedido de poda pode demorar até 60 dias para ser atendido. E foi a falta de manutenção que provocou o acidente em Higienópolis. 
O operador de telemarketing Sérgio Cunha Jr registrou a queda da árvore com a câmera digital. As imagens da máquina não fazem jus ao cenário que ele viu. “Era cenário de guerra, explosão. Eu quis me esconder.”
A árvore centenária ficava na esquina das ruas Doutor Veiga Filho e Albuquerque Lins. Ela caiu sobre a rede elétrica por volta das 19h de ontem. O zelador de um prédio diz que já havia avisado a Eletropaulo que a árvore corria risco. “Liguei por volta das cinco e quarenta da tarde. O fiscal da Eletropaulo teve aqui por volta das seis e quarenta. Deram uma olhada na árvore. Disseram para chamar a prefeitura para eles fazerem a poda. E foram embora. Não deram a mínima. Em seguida, a árvore caiu.”
Em uma praça no Jardim das Bandeiras existem eucaliptos que têm 50 anos de vida e estão doentes. A descoberta foi feita pela engenheira agrônoma contratada pelos próprios moradores do bairro para fazer a análise das árvores. Eles estavam cansados de esperar pelo trabalho da prefeitura para resolver o problema.
O professor de fisiologia vegetal Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), afirma que falta um trabalho de prevenção e de educação. “As árvores tem de ser podadas desde pequenininhas. O que a gente faz hoje é mutilar as árvores.”
O arquiteto André Graziano, assistente de áreas verdes da Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, afirma que “tem muitas árvores” em São Paulo. “Nós estamos diminuindo este número de árvores aguardando serviço desde 2005.” De acordo com ele, a prefeitura abriu concurso para contratar 64 novos engenheiros agrônomos.

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Artigo do Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge publicado na coluna Neotrópicas do Site de Pesquisa FAPESP em 06/03/2008

 

O tricentenário do nascimento do brilhante e imodesto pai da moderna taxonomia passou quase despercebido

Ao ler este artigo, o leitor provavelmente deve estar vestindo alguma peça de roupa feita de Gossypium hirsutum L., o algodão. Talvez esteja apoiando seu computador sobre uma mesa feita de Pinus taeda L. (pinho) e tenha comido no almoço sementes de Oryza sativa L. com Phaseolus vulgaris L., o famoso arroz com feijão. É possível ainda que sua família possua um exemplar de Cannis familiaris L. O que todos esses nomes escritos em itálico têm em comum? O L. ao final de cada um deles denota que os binômios foram propostos por um cientista de que a maioria de nós já ouviu falar, Lineu, um médico sueco com um senso prático incrível que se tornou um dos maiores botânicos da história por ter estabelecido o principio básico usado para classificar os seres vivos.
A identificação de seres vivos não é nada trivial, principalmente nos dias de hoje. Ao descobrirmos, por exemplo, um microorganismo patogênico numa planta tóxica ou mesmo uma planta que produza um composto milagroso para a cura do câncer, se não soubermos como distingui-los de outros organismos, como faremos para encontrá-los novamente e termos certeza de sua identidade? Uma solução seria guardar exemplares do organismo em algum lugar, ou seja, formar uma coleção. Com ela, teríamos acesso rápido à informação para comparar com o que encontramos na natureza. Portanto, para conseguir essa forma de acesso é necessário ter um bom sistema de classificação.
Tudo começou em 1735 com a publicação da versão inicial da obra Systema Naturae por Carolus Linnaeus (1707-1778), nome adotado por Carl Linnaeus para assinar seus trabalhos científicos em latim, o idioma culto de então (depois de ter se tornado nobre em 1761, Lineu passaria a assinar Carl von Linné). O pequeno artigo, de apenas 11 páginas, propondo um sistema de classificação para os seres vivos foi reeditado várias vezes e, 23 anos após sua primeira publicação, já apresentava 4.400 espécies de animais e 7.700 de plantas. Naquela época, como boa parte dos cientistas de hoje, Lineu trabalhava com financiamento do governo (o da Suécia) e com alunos de pós-graduação.  Ao longo de sua carreira, publicou setenta livros e trezentos artigos científicos, uma produção científica invejável para a maioria dos cientistas do século XXI. Enviou dezenas de alunos para diferentes partes do mundo pedindo a eles que descrevessem novas espécies e as enviassem para o orientador.
Parece haver duas razões principais para o sucesso enorme da chamada Taxonomia Lineana. Em primeiro lugar, está a praticidade. O uso de caracteres morfológicos e dos binômios – o primeiro referente ao gênero e o segundo, à espécie do ser vivo descrito – é prático e simples. Em segundo, a adoção do sistema hierárquico social. Seu sistema de classificação, chamado de “divisão e denominação”, segue uma espécie de hierarquia monárquica, catalogando os seres vivos em reinos, classes e ordens, como se fossem títulos de “nobreza”. Essa escolha provavelmente facilitou a adoção do sistema de classificação por outros cientistas que, na época, viviam sob regimes monárquicos. Na Inglaterra, a idéia realmente pegou muito bem. Tão bem que, após a morte de Lineu, Sir James Edward Smith, um cientista e colecionador inglês, comprou parte da coleção do médico-botânico sueco e, em 1788, fundou a Linnean Society em Londres. Até hoje, a Linnean Society é considerada uma das mais prestigiosas sociedades científicas do Reino Unido.
Com o crédito que adquiriu  com seu sistema de classificação dos seres vivos, Lineu se tornou extremamente respeitado.  No comando do Jardim Botânico de Uppsala, na Suécia, montou uma coleção de plantas organizada de tal forma que, até hoje, é a base para os Jardins Botânicos de todo o mundo.
Foi Lineu quem deu o nome científico à espécie humana, Homo sapiens, e foi também ele quem criou a idéia de raças entre os homens, classificando os seres humanos de acordo com a origem e cor da pele.
Mas não foi só na taxonomia que Lineu aplicou seu senso prático. Em 1733, desenvolveu uma escala para medir temperatura, invertendo a escala inventada por Celsius que ia de 100 para zero, o que usamos até hoje. Também se tornou importante na literatura, pois seu estilo de redação descrevendo suas viagens, teve forte influência na literatura sueca do século XVIII.
Lineu tinha noção clara da importância do que havia inventado e muitas vezes a sua arrogância chamava a atenção. Ele mesmo costumava dizer: “Deus fez, Lineu organizou”.
A despeito da importância de sua obra, Lineu não é tão conhecido como outros personagens. Uma busca na internet, por exemplo, mostra para Linnaeus apenas cerca de 3 milhões de hits, enquanto que para Darwin são 33 milhões e para Shakespeare são 45 milhões. Apesar de termos sido convencidos de que devemos escrever os “binômios” criados por Lineu e de lembrarmos de cor alguns deles, como o de nossa própria espécie,  pouco sabemos sobre como, quando e por que essa forma de dar nomes aos seres vivos foi criada. No ano passado, mais precisamente no dia 13 de maio de 2007, passou-nos inclusive despercebida a comemoração que ocorreu em vários lugares do mundo em razão do tricentenário do aniversário de nascimento de Lineu.
Há muitos tipos de heróis que são vistos como tal por terem dedicado suas vidas ao bem de seus países e da humanidade. Porém, há poucos heróis que duram 300 anos, como Lineu. No caso dele, um dos motivos principais para que ainda seja considerado um grande herói da humanidade é o potencial prático de suas descobertas. Seu sistema de classificação foi adotado e utilizado com facilidade em todo o mundo e facilita a vida das pessoas. Essencialmente, o grande poder prático da taxonomia lineana é o fato de que podemos, a qualquer momento, identificar um ser vivo e distingui-lo dos demais.
Desde a época de Lineu, houve muitas mudanças no sistema de classificação, principalmente das plantas, mas a idéia central de classificar hierarquicamente ainda é a base taxonômica mais usada. Atualmente, o uso de seqüências de DNA dos organismos está provocando uma revolução na taxonomia, mas ainda é o sistema hierárquico de nomear organismos criado por Lineu que é usado. Uma variação importante é a classificação dos organismos em uma ordem evolutiva. Embora seja uma forma mais clara de ver os organismos para os biólogos, ela não tem o apelo prático do sistema lineano. Assim, é provável que continuemos usando o sistema hierárquico por muito tempo.
Sem um processo de classificação e identificação não é possível fazer praticamente nada. Por exemplo, se comermos o feijão errado podemos nos intoxicar e morrer. O que é notável é que em 1740 foi o financiamento governamental que possibilitou a Lineu realizar tudo isso. Ainda hoje, o investimento financeiro e a manutenção de cientistas pelo governo é provavelmente a mais importante fábrica de heróis de um país.

 

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Entrevista do Prof. Marcos Silveira Buckeridge ao Programa Repórter Eco, da TV Cultura, no dia 02/03/2008

 

Os sabores da Amazônia nas panelas do chef brasileiro Alex Atala, reconhecido internacionalmente. A salada cultural brasileira. Como a mescla de povos resultou numa imensa variedade culinária.
Entrevista com Ricardo Maranhão/professor de história da gastronomia :
” Uma coisa chave da culinária dos índios foi o motivo pelo qual os portugueses se lançaram às grandes navegações. Sabe o que é? A pimenta!!!”
Alimentação e biodiversidade. Plantas nativas do Brasil nutrem o paladar e muito mais.
Entrevista com Marcos Buckeridge/biólogo: “Tem frutas extremamente ricas. Por exemplo: o Camu Camu da Amazônia é um fruto bastante rico em vitamina C. O Caju, que temos aqui, tem bastante cálcio”. Aceite um convite. Vamos andar pelos mercados brasileiros de olhos bem abertos, observando cores, formas, cheiros, sabores. É praticamente impossível não se encantar. Que o diga a turista californiana.
Entrevista com Tracy Chu/gerente de programação do Yahho, turista da Califórnia-”Em visita ao Brasil pela primeira vez, Tracy Chu provou frutas desconhecidas prá ela. Além de achar tudo muito colorido, bonito e fresco, destacou o sabor: é maravilhoso!”
Os mercados são importantes fontes da história da alimentação. Eles ajudam a entender porque são estes os produtos que chegam à nossa mesa. Quem explica é o professor de História da Gastronomia Ricardo Maranhão.
Entrevista com Ricardo Maranhão/professor de História da Gastronomia – “Quando os portugueses aqui chegaram eles tiveram, naturalmente, que comer a comida dos índios, que como todo mundo sabe, é baseada na farinha de mandioca, no beiju, na caça e muitas frutas. Com o tempo, foram trazendo as frutas européias e foram enriquecendo com Morangos, Maçãs e Peras, esta rica culinária de frutas que é a base fundamental do início da colonização, antes de termos a coisa mais assentada que são as plantações”.
Entrevista com Marcos Buckeridge/biólogo -
Pergunta: ” E as nossa culturas agrícolas se estabeleceram a partir e coisas que vieram de fora?
Resposta: “Principalmente de coisas de fora. O café é um exemplo. A cana de açúcar é outro”.
Entrevista co Alex Atala/chef -
“Dos momentos mais importante prá gastronomia no mundo foram as navegações. Foi onde ocorreram as trocas culturais. E dessa época, todo mundo sabe, as Américas exportaram as Batatas, o Tomate, o Cacau, uma série de produtos que foram levados daqui pro mundo e reconhecidos”.

Autor:
Editora-Chefe:Vera Diegoli.Reportagem: Cláudia Tavares. Pauta: Paula Piccin. Imagens : Alcides Júnior. Edição de Texto :Mariene Pádua. Edição de Imagens: Olavo Inacio e Francisco Barbosa. Supervisor Geral:Washington Novaes.

 

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Entrevista do Prof. Marcos Silveira Buckeridge ao Programa Revista Brasil, da Rádio Nacional, publicada no Portal Bem Paraná em 11/02/2008

 

A concentração crescente de gás carbônico na atmosfera, a partir do uso do petróleo, provoca aumento da temperatura e ameaça as espécies vegetais. A tese é do professor de Fisiologia Vegetal do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) Marcos Buckeridge, que pesquisa a influência das mudanças climáticas no meio ambiente. Em entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional, o professor disse que as árvores brasileiras pesquisadas (típicas da Mata Atlântica e da Amazônia) têm nível de sensibilidade parecido. Ainda não dá para dizer quais podem desaparecer primeiro.
Buckeridge explicou que nas folhas das plantas existem boquinhas que se abrem de manhã, absorvem gás carbônico e se fecham no fim da tarde. O gás é transformado em açúcar, usado pela planta durante a noite para crescer. “O açúcar nas folhas é o mesmo que a gordura para nós. As plantas engordam e têm mais amido para usar no crescimento”, comparou.
Numa projeção até 2040, os efeitos do gás carbônico sobre as plantas seriam positivos, segundo o professor. “Mas a partir daí, com uma elevação média de temperatura que deve variar de 2 a 3 graus celsius, o quadro pode mudar. A fotossíntese começa a ficar sensível negativamente e o sistema se desliga. Agora vamos estudar [os efeitos do] gás e temperatura juntos”.
O especialista também afirmou que eventuais efeitos do aquecimento global sobre seres humanos e animais só poderão ser sentidos após 2050. Ele ressaltou a necessidade de providências no sentido de reduzir o quanto antes a emissão de gás carbônico.
Buckeridge destacou o uso da bioenergia, a modernização de procedimentos industriais, a conscientização geral da sociedade e a influência decisiva que, na sua opinião, teria uma mudança política nos Estados Unidos.
“Se os Democratas ganharem, eles são mais preocupados com isso [aquecimento global]. Os Estados Unidos são imensamente importantes nesse processo porque têm a maior produção industrial e respondem pela maior emissão de CO2 no mundo”, argumentou o professor.

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Artigo do Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge publicado na coluna Neotrópicas do Site de Pesquisa FAPESP em 30/01/2008

 

Pouca gente lembra que o aquecimento global também põe em risco os corais, inclusive os da costa brasileira

O mar é um dos primeiros ambientes a serem citados como alvo importante do impacto das mudanças climáticas globais. O ponto central das discussões sobre o mar é geralmente o aumento em seu nível como conseqüência do descongelamento das calotas polares devido ao aquecimento global. Isso é de fato de importância imediata para a civilização, já que grande parte dela construiu suas cidades próximas à costa.
Já do ponto de vista da biodiversidade, o urso-polar tem sido um excelente “garoto-propaganda” das mudanças climáticas, aparecendo como vítima direta do aquecimento global. Porém, como não há ursos-polares no Brasil, muitas vezes fica difícil demonstrar tão eloqüentemente os efeitos do aquecimento sobre os seres vivos da nossa biodiversidade marinha. Por isso, esses efeitos ainda são pouco conhecidos e divulgados.
Biologicamente, o ambiente marinho apresenta diferenças importantes em relação ao terrestre. Mas é possível estabelecer paralelos entre esses dois mundos. Em terra firme, a celulose é o principal composto que sustenta fisicamente os organismos vivos de forma direta ou indireta. No mar, os depósitos de carbonato de cálcio têm importância, do ponto de vista puramente físico, análoga na região costeira.
Em outras palavras: numa floresta, as comunidades biológicas se estabelecem principalmente associadas às árvores, que provêem o equilíbrio hídrico e de temperatura necessários para a estabilidade dos organismos; no mar, os recifes de corais e os bancos de macrófitas (macroalgas e angiospermas marinhas) constituem a base física sobre a qual uma vasta diversidade de organismos se associa.
No mar, a maior parte da biodiversidade está nas regiões costeiras. As correntes marinhas que correm próximas à costa fazem circular os nutrientes e nos locais onde há maior riqueza são encontrados os recifes de corais. Bancos de corais podem ser tão ricos em biodiversidade que são até chamados por alguns de “florestas submersas”.
Para entender melhor como as mudanças climáticas podem afetar a biodiversidade marinha, é preciso levar em conta três fatores que estão na base dessas alterações: 1) aumento na concentração atmosférica de gases do efeito estufa, sendo o CO2 o principal deles; 2) elevação da temperatura global do planeta 3) aumento ou diminuição na disponibilidade de água.
A primeira coisa que temos de lembrar é que o terceiro fator não é tão importante para os efeitos das mudanças climáticas sobre o mar, já que este é composto de água e compreende cerca de 60% da superfície do nosso planeta. Porém, os outros dois são de grande importância, como explicarei em seguida.
No caso do CO2, sabe-se que esse gás é bem menos solúvel na água do que no ar e, portanto, um grande aumento dele no ar é necessário para que se obtenha um aumento relativamente pequeno desse gás dissolvido na água. Cerca de um quarto do dióxido de carbono liberado na atmosfera se dissolve no oceano. Parte do gás reage com a água formando ácido carbônico, que, por sua vez, libera íons H+. Isso resulta em um aumento da acidez. Estima-se que, desde o início da era industrial, o pH dos oceanos tenha sofrido uma queda média de 0,1 unidade, devendo cair mais 0,3 até o final deste século.
A acidificação dos oceanos compromete a sobrevivência de algas calcárias e de animais como moluscos, corais, crustáceos e outros que produzem exoesqueletos de quitina. Segundo o IPCC, se a tendência atual de acidificação se mantiver, após o ano 2050 o pH deve atingir um valor no qual o balanço químico do sistema carbonato se inverterá. Ao invés de ocorrer acúmulo de carbonato de cálcio nos oceanos, como acontece hoje, o sistema passará a dissolvê-lo. Essa inversão produzirá outra reviravolta: ao invés de absorver CO2, como fazem atualmente, os oceanos passarão a emiti-lo, agravando ainda mais o efeito estufa. Na costa brasileira, a principal ameaça parece estar relacionada aos extensos bancos de algas calcárias da plataforma continental e aos recifes de coral.
O aquecimento dos oceanos é outra questão preocupante. Apesar de aumentos na temperatura se disseminarem de forma mais lenta no meio líquido do que no ar, os organismos marinhos são muito mais sensíveis a essas alterações. Ínfimas variações, entre 0,01 e 0,1°C, podem causar mudanças significativas tanto na riqueza de espécies como na diversidade funcional dos organismos e comunidades marinhas. Um aumento de apenas 1°C na temperatura da superfície oceânica submete os recifes de coral a estresses que os levam ao branqueamento, ou seja, à perda das algas que vivem em simbiose com os corais, resultando em sua morte e na desestruturação de todo o sistema.
Há ainda alguns efeitos indiretos, resultantes da interação entre o aumento da concentração de CO2 e a elevação da temperatura. Esses dois fatores induzem a mudanças no clima, e as previsões do último relatório do IPCC indicam que eventos extremos poderão ocorrer. Tais eventos podem significar furacões, mas podem simplesmente se traduzir em tempestades mais intensas, com efeitos de turbulência bem maiores do que as comunidades marinhas vêm enfrentando nos últimos milhares, talvez milhões de anos. Por que a turbulência é importante? Porque aumentos muito grandes na velocidade das correntes ou eventos turbulentos acima do normal literalmente arrancam os organismos de seu substrato e, com isso, a comunidade se desfaz. Segundo os biólogos marinhos, a velocidade de reajuste das comunidades no mar é bem maior do que na terra, mas não se sabe que impacto terá um excesso de fragmentação dessas comunidades.
No Brasil, estamos acostumados a nos orgulhar de sermos um dos países com maior biodiversidade no planeta. Porém isso se deve à biodiversidade terrestre, e não à marinha, pois esta última é bem maior na Ásia do que na América do Sul. Além de haver maior dificuldade (principalmente a financeira) em se estudar os oceanos, o Brasil tem dado proporcionalmente mais atenção aos biomas terrestres que aos marinhos. Todavia, se continuarmos preterindo investigações científicas sobre a biodiversidade marinha brasileira, correremos o risco de não termos tempo hábil para conhecer o que existe sob as águas e tentar entender como as comunidades submersas funcionam.


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Artigo do Prof. Dr. Marcos Silveira Buckeridge publicado na coluna Neotrópicas do Site de Pesquisa FAPESP em 28/11/2007

A cana é hoje a melhor opção para produzir álcool, mas o milho e sobretudo a mandioca também têm bom potencial.

Estamos vivendo no Brasil um momento muito interessante em que os investimentos na pesquisa científica em biotecnologia começam a dar resultados que estimulam a discussão sobre quais as melhores opções para o país nas áreas de meio ambiente e energia. Esse debate ilustra o papel crucial da ciência na determinação das estratégias de um país. Afinal, não é para isso que pagamos nossos impostos? Paralelamente, a sociedade brasileira parece estar amadurecendo a ponto de conseguir intensificar a comunicação entre os setores tomadores de decisão e os produtores de conhecimento, um diálogo que aumenta a velocidade de produção de tecnologia e melhora o posicionamento estratégico de um país frente à comunidade internacional.
A decisão sobre o que deve ser financiado é tomada quando o governo federal e os estaduais determinam suas políticas públicas. As agências financiadoras brasileiras, controladas pelos governos, além de várias empresas, parecem estar interessadas em financiar projetos em praticamente qualquer área que proponha novas soluções para a produção de biocombustíveis. Ao mesmo tempo, a trajetória da pesquisa é determinada pela comunidade científica, que, ao fazer novas descobertas, altera constantemente o cenário de prós e contras para as diferentes rotas estratégicas a serem seguidas.
Nesse contexto, cabe uma pergunta: qual a melhor espécie para produzir álcool no Brasil? Cana, milho ou mandioca? No momento, é obviamente a cana, única das três plantas que dispõe de quantidade suficiente de um carboidrato (a sacarose) em seu tecido que pode ser diretamente fermentado para a produção de álcool e do açúcar que consumimos. Milho e mandioca têm amido, um tipo de carboidrato mais complexo que precisa passar por mais transformações do que a sacarose para gerar etanol. Ainda assim, será que o milho e a mandioca teriam chances de se firmar no mercado de biocombustíveis no futuro próximo? Aparentemente sim, mas não há como responder a essas perguntas no momento por falta de mais pesquisas. Por ora, vamos examinar, em poucas linhas, o que sabemos sobre cada uma dessas plantas e seu potencial de produção de etanol.
A história mostra que, enquanto as populações da América Central e do Sul selecionaram o milho para aumentar a produção de amido em suas sementes, a cana foi modificada para aumentar a concentração de sacarose no colmo, nome botânico para o “caule” das gramíneas. Isso porque a cana era inicialmente usada como um remédio, por conter um pouco mais de açúcar. O melhoramento da cana começou logo após o descobrimento do Brasil. Muitos anos depois, o intento deu certo tornando o país um dos maiores produtores de açúcar do planeta. Mais recentemente, nos tornamos também os líderes mundiais na tecnologia de produção de biocombustíveis.
Em termos energéticos, da quantidade de carboidratos que produzem, podemos comparar um colmo de cana e uma espiga de milho a, respectivamente, um CD com capacidade de 700 Mb e um pen drive de 2Gb. Enquanto o milho empacota o carboidrato de reserva nas sementes em forma de amido, a cana armazena sacarose no colmo na forma solúvel. Além disso, há a questão da eficiência energética de cada planta em chegar ao produto final do armazenamento. Como os processos que levam à produção de amido passam pela produção da sacarose, o milho acaba gastando mais energia que a cana para armazenar energia na forma de açúcar.
A cana produz sacarose nas folhas e a transporta para o colmo, onde ficará armazenada até a colheita. Quando cresce no campo, a cana investe inicialmente em todo o seu corpo até obter um bom número de folhas. Depois de um curto período de seca, ocorre o armazenamento de grandes quantidades de sacarose. A cana acumula a sacarose para usar em sua própria floração e na produção de sementes. Porém, o agricultor interrompe esse processo e não deixa que as plantas floresçam. Dessa maneira, parte da sacarose que seria consumida para a reprodução acaba sendo utilizada para aumentar o seu teor no colmo que nós, humanos, iremos utilizar para produzir açúcar e álcool. No caso da cana, basta espremer o colmo e consegue-se uma solução de sacarose, que é usada diretamente para fermentação e produção de etanol.
O milho faz tudo quase igualzinho à cana, mas há uma diferença fundamental. Do ponto de vista agrícola, o objetivo do milho é deixar a planta florescer e produzir sementes com o maior teor de amido possível. Esse carboidrato é constituído de cadeias de glicose que interagem entre si e formam pacotes compactados de açúcar com baixa solubilidade na água. Por isso, é preciso usar enzimas para degradar o amido e transformá-lo em açúcares solúveis (maltose e glicose) que serão então utilizados na fermentação para gerar o etanol. Esse processo é caro e mais trabalhoso do que no caso da cana.
Por fim, podemos pensar se também seria válido produzir álcool a partir do amido das raízes da mandioca. Mas, antes de irmos por esse caminho, teríamos que tornar viável um processo enzimático de hidrólise do amido. Para tanto, pesquisas básicas e de processos terão que ser intensificadas para aprendermos os caminhos necessários para viabilizar essa opção do ponto de vista econômico. Outra opção, ainda com a mandioca, é recorrer à engenharia genética e fazer com que, em vez de amido, as raízes da planta acumulem sacarose, como ocorre no colmo da cana. Uma desvantagem, nesse caso, é que perderíamos o efeito da compactação, que é uma forma de armazenar mais energia em um mesmo espaço. Em outras palavras, armazenando sacarose se dilui a capacidade de guardar energia, pois ela, a sacarose, precisa de muito mais água para se manter na forma solúvel. Já o amido existe na forma de grânulos com suas moléculas extremamente compactadas e com pouca água, exigindo bem menos espaço dentro células. Com base nisso, pode-se especular que o farelo de mandioca, que tem um teor de açúcares (amido) equivalente ao teor de sacarose da cana (140 gramas por quilo), teria uma menor capacidade total de armazenamento de energia se fosse produzido a partir de uma planta de mandioca capaz de armazenar somente sacarose. Nesse caso, o tecido da raiz necessitaria de mais água para manter a sacarose. Mas, em relação ao milho (embora não em relação à cana), a mandioca gastaria menos energia metabólica para gerar etanol, pois não precisaria florescer.
Aqui chegamos a algumas questões cruciais: afinal, qual a melhor espécie para produzir álcool? Como se disse, a cana apresenta amplas vantagens no momento, mas essa supremacia pode não se sustentar no longo prazo. Precisamos continuar pesquisando. Precisamos obter informações estratégicas, como o nível de resposta de cada uma dessas três espécies às mudanças climáticas previstas para este século, como o aumento da concentração de CO2 e a elevação da temperatura. Já sabemos que a cana responde melhor do que o milho a essas alterações climáticas e será provavelmente mais produtiva nos próximos 20 ou 30 anos, mas falta conhecer as respostas da mandioca. Se começarmos a pensar no que mais falta saber, a pilha de perguntas vai aumentando. Por exemplo, em quais regiões e climas cada espécie se adapta melhor? Qual será o limite de eficiência de processos que usem a hidrólise do amido? Até onde podemos melhorar geneticamente as plantas para facilitar a digestão enzimática do amido? Que impactos sociais e ambientais cada planta provocará se aumentarmos suas escalas de plantio?
Precisamos trabalhar de forma interdisciplinar para responder o mais rapidamente possível a essas e a outras questões. Dessas respostas, dependem questões importantes, que terão efeitos sobre o meio ambiente, a posição do Brasil em mercados internacionais e até o investimento de grupos estrangeiros no país.

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